segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Biodiversidade e Processo Saúde-Doença




São os processos ecológicos, tecnológicos e culturais que, articulados entre si, determinam as formas de apropriação e transformação da natureza, e esses processos refletem valores e interesses sociais diversos bem como relações de poder conflitantes que se constituem na expressão histórica das relações sociais e das formas de apropriação/reapropriação da natureza. Por isso, problematizar os processos ecológicos implica problematizar aspectos fundamentais do fenômeno da biodiversidade.

O termo "biodiversidade", contração de diversidade biológica, foi introduzido na década de 1980, século XX, por cientistas que se inquietavam com a ação humana sobre os organismos vivos. Na época verificava-se uma intensa intervenção sobre a variabilidade das espécies vivas por meio de práticas de extermínio, recriação e transformação (Lévêque, 1999).

Diversidade biológica refere-se à variedade e à variabilidade dos organismos vivos e à complexidade ecológica onde eles ocorrem. Biodiversidade é também a variedade funcional e estrutural das diferentes formas de vida genéticas, das populações, das espécies, das comunidades e dos diferentes níveis ecossistêmicos.

Dentre os fatores que caracterizam a diversidade incluem-se o número de espécies (riqueza), a sua relativa abundância (uniformidade), a presença de espécies particulares (composição), a interação entre as espécies (efeitos aditivos) e a variação temporal e espacial nessas propriedades (Tommasino e Foladori, 2001).

A biodiversidade envolve os seres vivos, seu material genético e os complexos ecológicos e também os fluxos, os nexos, as articulações e as ações por meio dos quais esses seres se mantêm relacionados. Nesse sentido, a biodiversidade expressa não só a variedade da vida como a importância dessa variedade. Ela expressa as bases sobre as quais as diferentes formas de vida se apóiam e dependem mutuamente. Do desenvolvimento e do equilíbrio da biodiversidade depende a manutenção dos processos de evolução de todo o mundo vivo.

Ainda que a maior parte das definições de biodiversidade dêem ênfase primordial às entidade –, por exemplo, as espécies –, elas contemplam também a idéia de processo em dois aspectos: primeiro, reconhecendo que uma das dimensões da biodiversidade é a variedade de funções que as entidades desempenham; segundo, incorporando as interações ecossistêmicas como componentes constitutivos da biodiversidade (Gaston, 1996).

Essa questão é bastante contemporânea e vem se tornando recorrente para os ecólogos; diz respeito aos estudos de comunidades. Esses estudos têm se preocupado não apenas com a existência, a importância ou a perda da variabilidade de espécies como também com a transição e a contingência das interações entre as espécies, as comunidades, as populações e os ecossistemas em geral (Southwood, 1986), porque se sabe que as interações, os processos e as funções esclarecem tanto ou mais a complexidade do mundo vivo quanto as entidades em si.

Na saúde, processos e interações também têm sido objeto de problematização. Não se pode considerar saúdedoença como estados biológicos e sociais estáticos. A idéia de saúdedoença implica variações e adaptações contínuas. O passo do saudável ao enfermo começa com um período silencioso que pode ser muito curto ou muito longo, muitas vezes sem que se tenha meios técnicos para descobri-lo.

Saúde e doença não são estados em si, mas, ao contrário, contingências que se contrapõem relativamente uma à outra em constante movimento no processo da vida. Não parece possível definir saúde em termos absolutos e somente objetivos, muito menos pensar que saúde é a simples ausência de doença. Saúdedoença é um processo que varia segundo os tempos históricos e sociais, os ambientes e as circunstâncias ecológicas. Na medida em que esses estados são muito variáveis, são por isso mesmo dinâmicos e se transformam de acordo com as épocas, as condições de vida concreta das populações, as culturas. O "indivíduo são" é aquele que demonstra harmonia dinâmica dos níveis físico, mental e social com o seu ambiente, incluindo as variações biológicas do seu organismo (posto que nenhum estado é definitivo).

Os estados de saúde e doença representam, portanto, grandes extremos da variação biológica dos corpos, com uma infinita gradação intermediária entre esses pólos, muitas vezes imperceptível. Eles são a resultante de intercâmbios do organismo humano em adaptar-se física, mental e socialmente às condições variáveis do ambiente. Há dois tipos de fatores gerais que influenciam a capacidade de adaptação e tolerância dos homens aos fatores adversos a nossa biologia que sobrepujem a capacidade humana de adaptação: as imperfeições biológicas (anatômicas, fisiológicas hereditárias e congênitas) e os fatores adversos a nossa biologia, que podem existir no ambiente. A adaptação biológica é, por isso mesmo, um problema não apenas dos indivíduos, mas também de comunidades, de populações, de espécies (San Martin, 1979, p. 63). Exemplo desse fenômeno é a quase onipresença de agentes infecciosos no ambiente causando doenças somente em algumas circunstâncias e em alguns indivíduos. Há uma relação entre o agente infeccioso, os seres humanos e o ambiente que inibe ou atenua a sua natureza infecciosa. A epidemia de tuberculose dos países industrializados do Ocidente no século XIX, por exemplo, deveu-se, em grande parte, ao imenso estresse provocado pelas muitas horas de trabalho, pela má nutrição da população trabalhadora e pobre e pelos baixos padrões de moradia. Assim que esses padrões sociais melhoraram, as taxas de tuberculose imediatamente declinaram, precedendo qualquer terapia específica ou profilática (Kormondy e Brown, 2002).

O objetivo último da saúde não deve ser, portanto, a reparação do organismo mas, e sobretudo, a transformação das condições e modos de vida que se encontram na origem dos processos de adoecimento.

Essas questões revelam que, na dinâmica ecológica da natureza das espécies humanas e "naturais", a freqüência de determinados seres vivos depende em grande medida da freqüência de outros seres vivos, sejam eles vegetais, animais ou humanos, bem como dos diferentes determinantes sociais. A história de cada doença também depende da história de todas as doenças, da história dos homens.

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