São
os processos ecológicos, tecnológicos e culturais que, articulados entre si,
determinam as formas de apropriação e transformação da natureza, e esses
processos refletem valores e interesses sociais diversos bem como relações de
poder conflitantes que se constituem na expressão histórica das relações
sociais e das formas de apropriação/reapropriação da natureza. Por isso,
problematizar os processos ecológicos implica problematizar aspectos
fundamentais do fenômeno da biodiversidade.
O
termo "biodiversidade", contração de diversidade biológica, foi
introduzido na década de 1980, século XX, por cientistas que se inquietavam com
a ação humana sobre os organismos vivos. Na época verificava-se uma intensa
intervenção sobre a variabilidade das espécies vivas por meio de práticas de
extermínio, recriação e transformação (Lévêque, 1999).
Diversidade
biológica refere-se à variedade e à variabilidade dos organismos vivos e à
complexidade ecológica onde eles ocorrem. Biodiversidade é também a variedade
funcional e estrutural das diferentes formas de vida genéticas, das populações,
das espécies, das comunidades e dos diferentes níveis ecossistêmicos.
Dentre
os fatores que caracterizam a diversidade incluem-se o número de espécies
(riqueza), a sua relativa abundância (uniformidade), a presença de espécies
particulares (composição), a interação entre as espécies (efeitos aditivos) e a
variação temporal e espacial nessas propriedades (Tommasino e Foladori, 2001).
A
biodiversidade envolve os seres vivos, seu material genético e os complexos
ecológicos e também os fluxos, os nexos, as articulações e as ações por meio
dos quais esses seres se mantêm relacionados. Nesse sentido, a biodiversidade
expressa não só a variedade da vida como a importância dessa variedade. Ela
expressa as bases sobre as quais as diferentes formas de vida se apóiam e
dependem mutuamente. Do desenvolvimento e do equilíbrio da biodiversidade
depende a manutenção dos processos de evolução de todo o mundo vivo.
Ainda
que a maior parte das definições de biodiversidade dêem ênfase primordial às
entidade –, por exemplo, as espécies –, elas contemplam também a idéia de
processo em dois aspectos: primeiro, reconhecendo que uma das dimensões da
biodiversidade é a variedade de funções que as entidades desempenham; segundo,
incorporando as interações ecossistêmicas como componentes constitutivos da
biodiversidade (Gaston, 1996).
Essa
questão é bastante contemporânea e vem se tornando recorrente para os ecólogos;
diz respeito aos estudos de comunidades. Esses estudos têm se preocupado não
apenas com a existência, a importância ou a perda da variabilidade de espécies
como também com a transição e a contingência das interações entre as espécies,
as comunidades, as populações e os ecossistemas em geral (Southwood, 1986),
porque se sabe que as interações, os processos e as funções
esclarecem tanto ou mais a complexidade do mundo vivo quanto as entidades em
si.
Na
saúde, processos e interações também têm sido objeto de problematização. Não se
pode considerar saúdedoença como estados biológicos e sociais estáticos. A
idéia de saúdedoença implica variações e adaptações contínuas. O passo do
saudável ao enfermo começa com um período silencioso que pode ser muito curto
ou muito longo, muitas vezes sem que se tenha meios técnicos para descobri-lo.
Saúde
e doença não são estados em si, mas, ao contrário, contingências que se
contrapõem relativamente uma à outra em constante movimento no processo da
vida. Não parece possível definir saúde em termos absolutos e somente
objetivos, muito menos pensar que saúde é a simples ausência de doença.
Saúdedoença é um processo que varia segundo os tempos históricos e sociais, os
ambientes e as circunstâncias ecológicas. Na medida em que esses estados são muito
variáveis, são por isso mesmo dinâmicos e se transformam de acordo com as
épocas, as condições de vida concreta das populações, as culturas. O
"indivíduo são" é aquele que demonstra harmonia dinâmica dos níveis
físico, mental e social com o seu ambiente, incluindo as variações biológicas
do seu organismo (posto que nenhum estado é definitivo).
Os
estados de saúde e doença representam, portanto, grandes extremos da variação
biológica dos corpos, com uma infinita gradação intermediária entre esses
pólos, muitas vezes imperceptível. Eles são a resultante de intercâmbios do
organismo humano em adaptar-se física, mental e socialmente às condições
variáveis do ambiente. Há dois tipos de fatores gerais que influenciam a
capacidade de adaptação e tolerância dos homens aos fatores adversos a nossa
biologia que sobrepujem a capacidade humana de adaptação: as imperfeições
biológicas (anatômicas, fisiológicas hereditárias e congênitas) e os fatores
adversos a nossa biologia, que podem existir no ambiente. A adaptação biológica
é, por isso mesmo, um problema não apenas dos indivíduos, mas também de
comunidades, de populações, de espécies (San Martin, 1979, p. 63). Exemplo
desse fenômeno é a quase onipresença de agentes infecciosos no ambiente
causando doenças somente em algumas circunstâncias e em alguns indivíduos. Há
uma relação entre o agente infeccioso, os seres humanos e o ambiente que inibe
ou atenua a sua natureza infecciosa. A epidemia de tuberculose dos países
industrializados do Ocidente no século XIX, por exemplo, deveu-se, em grande
parte, ao imenso estresse provocado pelas muitas horas de trabalho, pela má
nutrição da população trabalhadora e pobre e pelos baixos padrões de moradia.
Assim que esses padrões sociais melhoraram, as taxas de tuberculose imediatamente
declinaram, precedendo qualquer terapia específica ou profilática (Kormondy e
Brown, 2002).
O
objetivo último da saúde não deve ser, portanto, a reparação do organismo mas,
e sobretudo, a transformação das condições e modos de vida que se encontram na
origem dos processos de adoecimento.
Essas
questões revelam que, na dinâmica ecológica da natureza das espécies humanas e
"naturais", a freqüência de determinados seres vivos depende em
grande medida da freqüência de outros seres vivos, sejam eles vegetais, animais
ou humanos, bem como dos diferentes determinantes sociais. A história de cada
doença também depende da história de todas as doenças, da história dos homens.
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